A expansão da movimentação de cargas no Porto de Rio Grande enfrenta desafios que vão além da capacidade do terminal. Durante o painel “Os caminhos de um Sul mais competitivo”, Rodrigo Velho, diretor comercial da Wilson Sons no Tecon Rio Grande, destacou que o principal entrave está nos custos de transporte até o cais. A discussão ocorreu antes da cerimônia de premiação das 100 maiores empresas gaúchas e a divulgação do ranking das 500 maiores do Sul.
De acordo com Velho, três gargalos comprometem a eficiência logística no Rio Grande do Sul: as condições das rodovias de acesso ao porto, a infraestrutura para navegação hidroviária e a falta de transporte ferroviário de contêineres. O terminal, que possui capacidade instalada de cerca de 1,4 milhão de TEUs (unidade equivalente a um contêiner de 20 pés) por ano, movimenta atualmente cerca de 1 milhão de TEUs. Segundo o executivo, a questão não está na estrutura do porto, mas sim na dificuldade de transporte. “O que nós não temos é uma chegada ao porto barata e competitiva”, afirmou, enfatizando a necessidade de investimentos que integrem diferentes modais de transporte.
O acesso rodoviário é um dos problemas mais urgentes. Segundo os dados apresentados, mais de 40 milhões de toneladas de carga transitam anualmente pela infraestrutura de acesso, que conta com pista simples. Este percurso também é utilizado pelo transporte ferroviário de grãos, ocasionando mais de duas interrupções diárias no tráfego. Essas interrupções podem causar esperas de até 40 minutos para caminhões e veículos de passeio, aumentando os custos operacionais e o tempo de viagem. Melhoria nas rodovias de acesso e ampliação da capacidade viária foram defendidas como medidas essenciais.
Um outro obstáculo é a malha ferroviária. O Tecon Rio Grande possui conexão que possibilitaria a recepção de contêineres por ferrovia, porém o serviço foi encerrado em maio de 2016. Velho atribui o fim da operação ao nível de investimento necessário para melhorá-la e à perda de mercado, enquanto recursos eram direcionados a investimentos no Paraná. O executivo também criticou o modelo de concessão anterior, que não garantiu os investimentos necessários para a malha do Rio Grande do Sul. A retomada do transporte ferroviário poderia diversificar as opções logísticas, incluindo o transporte de contêineres refrigerados de outras regiões e arroz da fronteira oeste do estado. Uma nova modelagem de concessão é vista como vital para recuperar essa conexão ferroviária.
A hidrovia também se apresenta como uma opção pouco aproveitada. A operação do Terminal Santa Clara, em Triunfo, interligado ao Porto de Rio Grande, realiza duas barcaças e quatro escalas semanais, mas ainda enfrenta limitações de infraestrutura. Em 2025, o terminal movimentou 52 mil TEUs. Velho também apontou um desequilíbrio nos fluxos de contêineres do Rio Grande do Sul, com 231 mil TEUs exportados, 79 mil importados e 51 mil na cabotagem, o que pode encarecer a logística devido à diferença entre exportações e importações. Santa Catarina foi citada como exemplo de estado que atrai mais importações, devido a políticas públicas e incentivos fiscais.
A perspectiva do Executivo estadual foi apresentada por Artur Lemos, secretário-geral de governo do Rio Grande do Sul. Ele comentou sobre a situação financeira do governo e seus impactos na expansão das empresas. Lemos destacou que reformas fiscais e privatizações buscam criar condições para investimento e melhoria dos serviços para a iniciativa privada. Como exemplo, ele citou a destinação de mais de R$ 150 milhões do Tesouro estadual ao distrito industrial do Porto de Rio Grande, reforçando o conceito de porto-indústria e atraindo novos empreendimentos para a região.
Ele também frisou a importância das concessões rodoviárias, uma vez que o estado carece de recursos próprios para realizar as melhorias necessárias. Lemos observou que as deficiências na infraestrutura podem ser subestimadas, mas impactam diretamente nas operações das empresas. A necessidade de veículos menores para acessar rodovias adequadas pode encarecer o deslocamento. Na visão do secretário, convênios bem estruturados poderiam tornar esses custos mais claros e garantir melhores condições de tráfego, mesmo que exijam o pagamento de pedágios.
Apesar de reconhecer que nem todos os projetos avançaram, ele defendeu que a questão da infraestrutura deve permanecer na agenda pública. Com a diminuição da guerra fiscal em decorrência de reformas tributárias, a qualidade da infraestrutura se torna ainda mais crucial na atração e retenção de empresas.
