A mobilização em Balneário Camboriú, Santa Catarina, trouxe à tona a proposta de separação dos estados do Sul do Brasil, após a derrota de Flávio Bolsonaro (PL) para o presidente Lula (PT). Um dos organizadores do movimento intitulado “O Sul é o meu país” defendeu que os recursos arrecadados nos estados de Santa Catarina, Paraná e Rio Grande do Sul sejam, em maior proporção, direcionados para a própria região.
Segundo uma reportagem, o organizador afirmou que, de cada R$ 100 enviados por Santa Catarina para Brasília, apenas R$ 14 retornam ao estado. Ele expressou indignação com os resultados das eleições, alegando que o Nordeste está dominando as decisões políticas ao votar majoritariamente em candidatos da esquerda. A consulta realizada na ação mobilizadora contou com 314 votos a favor da separação e 27 contra.
No entanto, essa visão reduzida ignora a complexidade do pacto federativo e o histórico de abandono da região Nordeste por governos centrais, o que pode ter contribuído para o crescimento de outras regiões. Debates sobre a desigualdade entre as regiões do Brasil muitas vezes desconsideram os processos históricos que levaram a essa situação, subestimando o impacto das políticas públicas nos padrões de desenvolvimento.
A “indústria da seca” e o poder local
A expressão “indústria da seca” refere-se a um sistema onde a calamidade climática é explorada por elites agrárias para garantir recursos e influência política. A dependência da população pobre em relação ao Estado para a sobrevivência se transformou em um mecanismo que favorece práticas clientelistas, onde o controle vem de grandes proprietários de terras ou políticos locais.
Um estudo publicado em 2025 revisita as denúncias do jornalista Antonio Callado, destacando como latifundiários e políticos se beneficiavam de políticas emergenciais que deveriam apoiar a população em situação de vulnerabilidade durante a estiagem. O socorro emergencial é frequentemente convertido em instrumento de poder local, sem transformar as condições que perpetuam a pobreza dos trabalhadores.
Desafios históricos e desenvolvimento
A resposta do governo às frequentes estiagens no Nordeste, com ações emergenciais, não foi suficiente para alterar a estrutura de vulnerabilidade da população rural. A criação da Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste (Sudene) em 1959 tinha a intenção de mudar esse cenário, promovendo planejamento e investimentos na região. No entanto, a autonomia da Sudene foi perdida após o golpe militar de 1964, com o planejamento regional subordinado a decisões centralizadas.
Embora a partir dos anos 2000 tenha havido um retorno de políticas voltadas para o desenvolvimento regional, a desigualdade permanece. Entre 2002 e 2022, o Nordeste registrou crescimento médio anual de 2,34%, superando o Sul, que ficou em 2,3%. Contudo, o PIB per capita da região ainda é significativamente inferior, o que demonstra que as disparidades estruturais não foram eliminadas.
Responsabilidade política e o futuro do pacto federativo
A proposta de separação com base em ressentimentos eleitorais simplifica a complexidade das relações sociais e políticas no Brasil. O voto dos nordestinos é uma escolha democrática e deve ser respeitado como tal. A distribuição de recursos federais deve ser garantida a partir de critérios que considerem o histórico de desigualdade e a necessidade de investimentos em todas as regiões.
Por fim, promover um desenvolvimento equitativo entre as regiões é um dever do Estado, que deve assegurar que todas tenham acesso a oportunidades e infraestrutura, combatendo assim as desigualdades que perduram no Brasil.
Fonte: Portal A10+
